sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

Palavras mal pensadas

No outro dia reparei que o meu filho Manel (7 anos) diz, em vez de ‘tal e qual’, ‘tal igual’ que, convenhamos, faz muito mais sentido!
As crianças têm uma inocência ou uma desformatação inata que lhes permite inferir o caminho mais simples, a forma mais lógica de dizer algumas palavras. Há vocábulos da língua Portuguesa que deviam ser oficialmente substituídos pela sua versão…mais funcional. Desde já proponho um novo tipo de acordo, um Acordo Ortopédico para corrigir as deformidades naturais de algumas palavras.
Acompanhe-me neste raciocínio:
A palavra ‘obsoleto’ devia ou não devia ser definitivamente substituida pela sua versão Ortopédica – ‘obsolento’?
Percebe o que quero dizer?
Se pensarmos, há dezenas de palavras que beneficiariam de uma ligeira correção.
Um amigo meu, quando tinha 5 anos, insistia com os pais que a forma correta de dizer a palavra ‘ciclista’, era realmente ‘biciclista’.

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Fading Social

Das coisas que mais adoro nos telefonemas é algo que intitulei de fading social. O fading é a designação que se dá à forma como algumas músicas terminam. O som vai-se sumindo devagarinho, como se o cantor tivesse sido raptado para longe.
Tipo Lionel Richie: LOOOOVE YOOuuuuu
Não é absolutamente genial quando as pessoas simulam esse efeito ao telefone? Eu acho brilhante! São pessoas que se despedem num elaborado efeito sonoro que mistura a diminuição progressiva do som, com a diminuição também progressiva da inteligibilidade do discurso. É muito giro, não sei já repararam. É assim:
- Então olha, para a semana ligo-te, um abraço, adeus, deus, deuz, uz, sch, ch.
Será que há algo de indelicado num desligar abrupto?
- Então adeus. (pin)
Acho que eu não ficaria ofendido.
Acho mais parvo o fading social, parece que estamos a ser ludibriados. É como se a pessoa, do outro lado, estive a sugerir – até ficaria à conversa mais um par de horas, mas como já se está a ouvir tão mal e tão ao longe, o melhor mesmo é desligar. Quando isso não passa de um efeito sonoro parvo, que fazem com a boca.
Pensando bem, sim, prefiro um desligar honesto e peremptório. De hoje em diante, nada de zumbidos de inseto no final das conversas telefónicas, por favor!

Marcar Presença

Alguém, como eu, odeia a expressão ‘marcar presença’, que o léxico jornalisto parece ter acolhido como a iguaria mais requintada da gastronomia noticiosa?
Pois eu odeio!
Ao googlar ‘marcou presença’, catapultam-se-me não menos de 11 milhões de resultados para o ecrã. Desde o jodador da bola que o site do Record afirma não ter ‘marcado presença’ no treino do V. Setúbal; a empresas que ‘marcaram presença’ em conferências luso-brasileiras; alguém que ‘marcou presença’ na abertura oficial do ano letivo; ainda outros que ‘marcam presença’ na moda lisboa…enfim…o que não falta por aí é marcadores de presenças.
Ora, as pessoas VÃO aos sítios, ESTÃO nos sítios, por absurdo até podem ser uma PRESENÇA num evento, vá lá, mas o que é isto do ‘marcar presença’?!? Que marca é que uma presença deixa?
Manuel Alegre, assistiu ao segundo dia do congresso socialista e, na ocasião exata da apoteose ao discurso de António José Seguro, borrou-se pelas pernas abaixo, marcando desta forma a sua presença, no assento 32 da fila J do hemiciclo.
Tudo bem, se um jornalista escrevesse isto desta forma, aí sim, tinha a minha benção, mas o laxismo abusivo de tanta marcação de presença do jornalismo actual, vão-me desculpar mas não concordo. Senhores jornalistas, marquem por favor, a presença da minha opinião nas mentes de V.Exas nas próximas peças que escreverem.    

O 'beijinho'

Sempre achei parva a distinção social elitista dos dois beijinhos e um beijinho. Em 90% dos casos sei quantos beijinhos atrivuir a cada pessoa…mas 10% das vezes fico à rasca. Tento aplicar o modelo anglo-saxónico do asséptico ‘bacalhau’. O problema é que isso, às vezes, pode ser conotado como uma atitude, não de pânico social, mas de sobranceria, ainda pior do que o mono-beijinho.
Mas agora, heis que a o absurdo alcança novas fronteira de estupidez. Agora há pessoas que se despedem por escrito com a palavra ‘beijinho’! Sim, não vá o leitor suspeitar que se escrevessem ‘beijinhoS’, seria daquelas pessoas que dava 2 beijinhos! Isto é uma pinderiquisse de bradar aos céus.
Com outra agravante, para mim, ‘beijinho’ dito no singular…enfim…faz-me lembrar a forma como as rameiras se referem ao ‘BJ’ (que não deixa ao mesmo tempo de ser a forma como algumas pessoas terminam os e-mails e SMSs).
Por isso, senhoras, a bem da clarificação de intenções, não concluam mais missivas com as expressões ‘beijinho’, nem BJ. É que, pode acontecer que nós homens, em vez de vos tomarmos por fidalquia, possamos pelo contrário, embandeirar em arco e criar expetativas de badalhoquisse que podem não ser exatamente o que pretendem.